Johannes Janzen


  Q U A R T A - F E I R A ,   1 0   D E   J U N H O   D E   2 0 1 5



AP Photo/Ahmed al-Husseini

Paul Vallely é professor visitante de ética pública na Chester Univeristy. Ele escreveu para o THE INDEPENDENT:

Uma mulher, pelo menos, está segura. Durante grande parte da sua gravidez, ela esteve na prisão em Cartum, capital da República do Sudão, vivendo com a pavorosa expectativa de ser enforcada após o nascimento do seu bebê. Ela foi acusada pelas autoridades de apostasia por ter se casado com um cristão, renunciando a sua fé. Entretanto, ela nunca foi muçulmana. Na quinta-feira, a provação de oito meses de Meriam Ibrahim finalmente terminou quando ela foi levada para fora do país para Roma, onde ela e sua nova filha bebê, conheceram o Papa no Vaticano.

Mas tem sido uma história diferente para os 3.000 cristãos de Mosul que foram expulsos de suas casas no norte do Iraque na semana passada por fanáticos islâmicos que difundem a "fatwa" dos alto-falantes das mesquitas da cidade ordenando-os a se converter ao Islã, a se submeter às suas regras e pagar uma coleta religiosa, ou ser condenado à morte... A última a deixar a cidade foi uma mulher com deficiência que não poderia viajar. Os fanáticos chegaram em sua casa e lhe disseram que iriam cortar-lhe a cabeça com uma espada.

A maioria das pessoas no Ocidente ficaria surpresa com a resposta para a pergunta: Quais são as pessoas mais perseguidas no mundo? De acordo com a Sociedade Internacional para os Direitos Humanos, um grupo secular, com membros em 38 estados em todo o mundo, 80 por cento de todos os atos de discriminação religiosa no mundo de hoje são dirigidos a cristãos.

O Centro para o Estudo do Cristianismo Global nos Estados Unidos estima que 100.000 cristãos morrem todos os anos, por causa de sua fé - isto é, 11 a cada hora. O Centro de Pesquisas Pew diz que a hostilidade à religião alcançou um novo recorde em 2012, quando os cristãos enfrentaram algum tipo de discriminação em 139 países, quase três quartos das nações do mundo.

Tudo isso parece um contra-senso aqui no Ocidente, onde a história do Cristianismo tem sido de dominância cultural e de controle desde que o Imperador Constantino se converteu e criou o Império Cristão Romano no século 4 dC.

No entanto, fato é que os cristãos estão a definhar na prisão por blasfêmia no Paquistão, e as igrejas são queimadas e crentes são regularmente abatidos na Nigéria e no Egito, que viram recentemente a sua pior onda de violência anti-cristã em sete séculos.

O programa anti-cristão mais violento do início do século 21 viu cerca de 500 cristãos serem agredidos até a morte por radicais hindus empunhando facões em Orissa, na Índia, milhares serem feridos e 50.000 desabrigados. Na Birmânia, os cristãos Chin e Karen são rotineiramente submetidos a prisão, tortura, trabalho forçado e homicídio.

A perseguição está aumentando na China; na Coreia do Norte, um quarto dos cristãos vive em campos de trabalhos forçados após ter se recusado a aderir ao culto nacional do fundador do Estado, Kim Il-Sung. Somália, Síria, Iraque, Irã, Afeganistão, Arábia Saudita, Iêmen e as Maldivas figuram entre os 10 piores lugares para ser um cristão.

Poucas vozes têm se levantado contra tudo isso. O historiador religioso Rupert Shortt escreveu um livro chamado cristianofobia. O jornalista religioso mais importante da América, John Allen Jr. L, acaba de publicar "The Global War" [A Guerra Global] contra cristãos. O ex-rabino-chefe Jonathan Sacks disse recentemente à Câmara dos Lordes que o sofrimento dos cristãos do Oriente Médio é "um dos crimes atuais contra a humanidade". Ele comparou esse sofrimento como os programas judaicos na Europa e disse que estava "chocado com a falta de protesto que [ele] tem evocado".

Por que isso está acontecendo em uma cultura que possui prazer em protestar publicamente contra a ferocidade do bombardeio israelense em Gaza ou contra o comportamento da Rússia na Ucrânia?

Em parte, é porque nossa elite intelectual está presa em velhas formas de pensar sobre o Cristianismo como a força dominante na hegemonia histórica do Ocidente. A igreja não tem ajudado nisso, com sua fixação na religiosidade piedosa e em assuntos culturais que ela falsamente considera como totêmicos – questões como o casamento gay e a ordenação de mulheres ao pastorado.

Foi criada uma falsa dicotomia entre a religião e a igualdade, resultando em uma sucessão de histórias novas comparativamente triviais sobre recepcionistas serem proibido de usar jóias religiosas ou enfermeiros sendo suspensos por se oferecerem para orar pela recuperação dos pacientes. Adotando em tais assuntos a retórica de perseguição obscurece a perseguição realmente real de cristãos sendo mortos ou expulsos de suas casas em outras partes do globo.

A maioria dos cristãos do mundo não estão engajados em "stand-offs" com secularistas intolerantes sobre essas pequenas questões. No Ocidente, o Cristianismo pode ter sido abraçado pela classe média e abandonado pela classe trabalhadora. Mas em outros lugares a grande maioria dos cristãos é pobre, muitos deles estão lutando contra culturas majoritárias antagônicas e têm diferentes prioridades na vida.

O paradoxo que isso produz é que, como Allen aponta, cristãos do mundo caem devido a divisão entre esquerda e direita – eles são muito religiosos para os liberais e muito estrangeiros para os conservadores.

No Reino Unido, é socialmente respeitável considerar o Cristianismo como estranho e é admissível intimidar um pouco seus seguidores. Isso produz uma realidade política surreal na qual o Presidente Obama visita a Arábia Saudita e "não chega a tempo" para discutir a supressão do Cristianismo na nação rica em petróleo; e em que o primeiro-ministro Cameron recebe um "broadside" de secularistas liberais para a afirmação historicamente inquestionável que a cultura da Grã-Bretanha é formada por valores cristãos.

A realidade de ser um cristão na maior parte do mundo de hoje é muito diferente. A falta do Ocidente entender isso somente contribui para sua tragédia – ou para atender ao apelo de homens como o patriarca católico de Jerusalém, Fouad Twal, quando pergunta: "Será que alguém está ouvindo o nosso grito? Quantas atrocidades temos de suportar antes de alguém, em algum lugar, venha em nosso auxílio?"


  Palavras-chave: cristianismo, perseguição

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   Comentários (1)

O Cristianismo perseguido
Ou seja: o Cristianismo, de religião perseguidora, passou a religião perseguida? Não concordo com a perseguição aos cristãos, nem com a perseguição a qualquer religião, apenas considero o Cristianismo em pé de igualdade com todas as confissões, perdoem-se aqueles que advogam que deve ser especial, por ter mais crentes. No entanto, se retirarmos destes crentes aqueles que foram obrigados, não restam muitos. São os "escravos do baptismo", como já escrevia Rimbaud.Acredito em Deus, apenas em Deus, sem filhos nem enteados, mas vivo no mundo dos "enteados de Deus", ainda que alguns, como os católicos, se glorifiquem de ser os "filhos de Deus". O que eu mais vejo neste mundo conturbado é um Deus desconhecido, até me apetece pegar nas palavras de Tillich e dizer: mas "Deus não é assim". Não sou nada para dizer o que Deus "É", mas concordo com Tillich, Deus nao pode ser como há tantos séculos O pintam. Porque se for, que futuro terá a fé, ou a humanidade? Acreditar em Deus faz parte do ser humano, a percentagem de ateus até é pouca. Infelizmente também faz parte do ser humano transformar Deus num tirano. Vivemos o tempo da "tirania de Deus": não sendo o tempo do "Deus tirano",mas o tempo do "Deus desiludido" com a falta de fé da humanidade. Mas o ser humano não tem toda a culpa:herdou, no berço, ou pelo baptismo, o "Deus" que lhe deram.
A cada sensivelmente 2.000 anos há uma nova religião que se impõe, foi sempre assim, antes de Cristo, também será depois de Cristo. Não é perseguindo cristãos (ou judeus, hindus, muçulmanos, pagãos)que chegamos à nova religião que acabará por se impor.O Cristianismo já perseguiu tudo, continua a perseguir, basta olhar para os seus sites e blogs onde continua a olhar para o retrovisor, descurando a vista, podendo chocar com os obstáculos. Quando acabará a vil tendência humana de perseguir alguém em nome de Deus?

Enviado por: Leonor Fernandes  |  Data: Qui, 03/09/2015 às 14h26   




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   Sobre mim
   Johannes G. Janzen é professor de engenharia na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Possui doutorado em Hidráulica e Saneamento pela Universidade de São Paulo com período sanduíche na Universidade de Karlsruhe, Alemanha. Tem experiência na área de Engenharia Civil e Ambiental com ênfase em Fenômenos de transporte e Hidráulica.

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