Johannes Janzen


  Q U A R T A - F E I R A ,   2 9   D E   F E V E R E I R O   D E   2 0 1 2


Abaixo, reproduzo, em vermelho, um trecho de um post publicado no site da Carta Capital, de Mauricio Dias (ver aqui). Comento em azul.

As igrejas, sempre de costas para o futuro, continuam intolerantes às renovações. No tempo do domínio católico no Ocidente, os contestadores de falsas verdades eram atirados à fogueira, amaldiçoados pela Inquisição, que não dava trégua a supostas heresias.

Nos dias de hoje, impotentes para ditar condenações capitais, os inquisidores ordenam aos fiéis a punição de políticos que defendem propostas dissidentes à doutrina que pregam. O aborto e a defesa da homofobia são os exemplos mais gritantes. E irritantes. Em reação, eles promovem nas eleições a "queima" de votos dos hereges e, com isso, cerceiam a liberdade do eleitor e intimidam os candidatos.


Segundo Maurício, você, prezado leitor, não pode mais motivar outros eleitores a votar em alguém por defender a sua visão de mundo (por exemplo, contra o aborto), pois estará aprisionando a liberdade de outro eleitor.

Mas, o que Maurício está fazendo quando escreve uma coluna de opinião na Carta Capital defendendo a sua visão de mundo (por exemplo, aparentemente favorável ao aborto e a criminalização da homofobia)? Não estaria também cerceando a minha liberdade e intimidando aqueles candidatos que defendem a sua visão de mundo? Ou é necessário ser um Maurício para definir quem pode ou não cercear a liberdade dos eleitores defendendo a sua visão de mundo?

Maurício deseja proibir as pessoas de se reunirem segundo as suas afinidades (pelo menos quando as afinidades não estão de acordo com o seu pensamento). De acordo com Maurício, somente ele (ou seria o Estado com pensamento do Maurício?) é quem teria o direito de decidir o que pode ou não ser pensado. Só Maurício pode ser inquisidor. Os evangélicos não podem promover a "queima" de voto dos hereges.

É óbvio que há "pastores evangélicos" que falam tolices e influenciam pessoas. Assim como há Maurícios que dizem tolices e motivam as pessoas para ter a mesma visão de mundo que eles. Mas, agora é proibido o tolo falar, pois irá cercear a liberdade de eleitores?

A partir de hoje, caro leitor, é Maurício quem define o que pode ou não ser pensado. Antes de você defender a sua posição em público, deverá consultar a opinião de Maurício. Se a sua opinião for idêntica a de Maurício, então você não estará cerceando a liberdade dos eleitores e não estará intimidando os candidatos. Mas, se você não concorda com a opinião de Maurício, então estará sendo um inquisidor.

Resumindo: As igrejas evangélicas não podem interferir no pensamento de Maurício (ou no pensamento político), entretanto Maurício pode impor o seu pensamento às igrejas.


Assim agem os pregadores das igrejas evangélicas. São os novos inquisidores.

Essa réplica tardia e infeliz do Tribunal de Inquisição materializou-se no Congresso, onde foi depor o ministro Gilberto Carvalho, na terça-feira 15 de fevereiro. Carvalho, secretário-geral da Presidência da República, viu-se forçado a expiar publicamente "pecados" cometidos aos olhos da poderosa bancada evangélica, transformada em braço executivo de diversas igrejas religiosas.

"O pedido de desculpas, de perdão, não foi pelas minhas palavras, e sim pelos sentimentos que provocaram", disse o ministro.


Só falta Mauricio dizer por qual pecado Gilberto Carvalho pediu publicamente perdão. Provocar sentimentos indesejáveis em outras pessoas agora é pecado? Quer dizer que um professor deverá pedir perdão aos seus alunos quando aplica uma prova e alguns obtém notas ruins e por essa razão experimentam sentimentos indesejáveis?

Para existir pedido de perdão é necessário ter existido uma ofensa.


Qual foi a heresia? Gilberto Carvalho, durante o Fórum Social Mundial, manifestou preocupação política com os evangélicos: “A oposição virou pó (…) a próxima batalha ideológica será com os conservadores evangélicos que têm uma visão de mundo controlada pelos pastores de televisão”.

Carvalho é católico fervoroso, mas também é militante político. Petista. Em razão do cargo, não foi cauteloso, embora tenha falado ingênuas obviedades. Não pregou o cerceamento de qualquer manifestação religiosa. Mas foi o suficiente para despertar a ferocidade adormecida da Frente Parlamentar Evangélica, na qual se destaca o senador capixaba Magno Malta, que, entre outras ofensas, chamou o ministro de "irresponsável".


Mauricio parece não entender a lei da não contradição. Ou Carvalho é católico fervoroso ou é petista. Nos assuntos em que as duas instituições possuem opiniões diferentes, Carvalho não pode ser católico e petista. Ele precisa se definir.

Por exemplo, o catolicismo aparentemente é contra o aborto. Os petistas, ao que tudo indica, são favoráveis ao aborto. Dessa forma, Carvalho não pode ser ao mesmo tempo a favor e contra o aborto. É a lei da não contradição.

Mas o que torna o texto de Mauricio ainda mais interessante (ou incoerente) é que ele defende que a pregação de Carvalho em começar uma batalha ideológica com evangélicos não é cerceamento de manifestação religiosa, mas os evangélicos pregarem uma batalha ideológica em assuntos de seu interesse é cerceamento da manifestação política (sic!).

Mais adiante Mauricio afirma:


Igreja e política. O desempenho de Garotinho aproximou ainda mais aquela reunião no Congresso do espírito obscurantista assumido pelos evangélicos. Nesse sentido, fazem uma repetição tardia do catolicismo primitivo.

Os votos dos evangélicos, arma que usam no processo político, talvez não sejam eleitoralmente decisivos. São muitos, é certo. O suficiente para acuar candidatos em busca de votos. Com eles acuaram Dilma e Serra, na eleição de 2010, e transformaram a competição em espetáculo para exibição de medíocres Torquemadas.


Os evangélicos não podem acuar candidatos em busca de votos, mas Mauricio pode acuar os candidatos (e eleitores) para votarem no seu candidato. Ora, ora, ora...

Como cidadão brasileiro e evangélico (ressalto que não estou utilizando o termo evangélico conforme é entendido na sociedade atualmente), tenho a liberdade de falar aquilo que penso. Ou só tenho a liberdade de concordar com aquilo que Mauricio pensa?

Mauricio precisa aprender a viver com as diferenças. Ele precisa aprender a ouvir o que os políticos e eleitores evangélicos pensam, assim como eu tive que aprender a ouvir as suas palavras (ainda que não as considere muito sábias).


  Palavras-chave: tolerância, evangélicos

Enviado por: Johannes Janzen  |  749 views   

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   Sobre mim
   Johannes G. Janzen é professor de engenharia na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Possui doutorado em Hidráulica e Saneamento pela Universidade de São Paulo com período sanduíche na Universidade de Karlsruhe, Alemanha. Tem experiência na área de Engenharia Civil e Ambiental com ênfase em Fenômenos de transporte e Hidráulica.

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